quarta-feira, 29 de agosto de 2018


Platão e o PT

Numa de suas palestras Gesse de Souza, o novo teórico do PT, sustenta uma infantil crítica ao liberalismo a partir de outra crítica baseada nas chicanas nietzscheanas sobre o pensamento de Platão, acusando o filósofo grego de ter separado a realidade em dois planos, a saber: o suprassensível e o sensível, associando este aos sentidos, ruim, e aquele à razão, boa em si.

Primeiro, Platão não divide a realidade, ele constata que a realidade tem dois planos que se conectam, sustentando que o mundo sensível não confere conhecimento porque os sentidos não podem dizer nada sobre a realidade pelo fato das sensações estarem afetas ao plano das percepções particulares, às experiências arbitrárias da opinião pessoal, ao passo que a razão busca os significados dos objetos que aos sentidos são vedados. Segundo, Platão deseja superar o axioma protagoriano do homem como medida de todas as coisas para o divino como centro da realidade, embora o divino de Platão em nada se pareça com o divino cristão, pelo contrário, é impessoal e está fora da história por não se submeter às orações e às preces dos indivíduos. Portanto, com a primazia da razão sobre os sentidos, Platão inaugura o cerne do pensamento científico.

Tanto Nietzsche quanto Gesse erraram nas críticas, sobretudo quando o teórico do PT olvida os avanços civilizatórios trazidos pelo pensamento liberal (econômico e político), não atentado às observações de Marx quanto ao fato da burguesia ter, revolucionariamente, destruído o mundo feudal e seu séquito de valores. Aliás, Gesse critica veladamente Marx quando afirma que o aspecto econômico não é suficiente para especificar as classes sociais.

A associação do sensório ao corpo e do racional à alma foi uma metáfora que Platão construiu para relacionar sensório ao transitório e racional ao perene, além de ponderar que neste mundo, ou melhor, as condições deste mundo não nos oferecem nenhuma possibilidade de conhecimentos seguros para resolver nossos problemas, mas somente os conhecimentos da alma por serem universais e necessariamente válidos, associados à razão. Nesse caso, Platão não diz que o corpo é podre, mas uma condição real que aprisiona a alma e não deixa com que está flua em toda sua potência.

Contra isso Nietzsche afirma que o filósofo grego teria despontecializado a vida em favor do transcendete. Pelo contrário, Platão potencializa a vida à medida que nos remete ao transcendente enquanto superação da “doxa”, do efêmero, do vulgar etc., ponderando que vemos apenas sombras como cópia da cópia e não os objetos por si mesmos. Daí Gesse de Souza se basear em Nietzsche para fazer crítica à razão sem dominar o pensamento de Platão para saber se o grego estava certo ou não, exemplificando o tipo de intelectual que somos: críticos de escolas teóricas por meio de outras escolas teóricas sem aprofundamento sobre a escola criticada sem conhecer seus pressupostos teóricos, por outra, despreza as contradições das assertivas de cada uma e suas correpondentes críticas. E como Gesse é confuso, confuso também é o PT na sua relação entre teoria e prática, política e realidade.

Minhas impressões sobre o PT é que ele consiste teoricamente num balaio de gatos, e como nesse campo não tem clareza da realidade, sua ação é uma verdadeira barafunda, criando confusão no seio da classe trabalhadora. Ao querer superar o marxismo como teoria da classe operária, nos jogou no colo da burguesia que não abre mão do pensamento liberal porque, corretamente, defende seus interesses de acumulação de riqueza.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018


A falta de diálogo entre a esquerda marxista e os trabalhadores

Apesar de muitas críticas à teoria do agir comunicativo de Habermas, penso que o filósofo alemão acerta quando destaca que no universo dos falantes, emissor e recebedor, as desavenças têm origem nos ruídos enquanto obstáculos à falta de comunicação entre os falantes por conta de um estar em sintonia diferente do outro, portanto é preciso que ambos dominem o código linguístico para falarem a mesma coisa. Nesse caso, segundo Habermas, o agir comunicativo tem por imperiosidade a razão capaz de linkar os falantes no universo dos princípios e não dos interesses, visto que aqueles podem gerar o consenso e os interesses inviabilizá-lo por conta da irracionalidade própria dos particularismos.

Pois bem, partindo do princípio de que a comunicação é o centro da divulgação das ideias, a esquerda marxista perdeu a classe operária para o PT, as igrejas evangélicas e os setores conservadores porque foi incapaz de se comunicar para além dos seus muros, logo não se deve responsabilizar os operários pelos nossos insucessos, pelas nossas incapacidades de explicar a realidade a partir do materialismo histórico. Nós, da esquerda marxista, nos contentamos em elaborar explicações abstratas, ao gosto acadêmico e numa disputa para saber quem domima mais o aparato teórico do pensamento marxista, com isso nos furtamos dialogar com os operários e olvidamos o quotidiano deles e suas dificuldades. Encastelamo-nos numa torre de marfim e nos desconectamos da realidade.

A esquerda marxista sempre se queixou da falta de espaço nas mídias convencionais, alimentando a infantil hipótese de obter, dessas mídias, os espaços que são reservados aos outros grupos políticos. Não, as mídias convencionais estão corretas pelo simples fato de que nós somos contrários aos interesses delas, logo não podemos ser tratados como aliados porque nosso objetivo e mudar o estado de coisas, por isso só podemos contar com a classe trabalhadora, mas para isso é necessário que mudemos nossa linguagem empolada e voltemos a ela explicando a realidade partindo do universo do trabalho enquanto raiz da produção de todo e qualquer bem, além de ouvirmos o que o operariado tem para nos dizer.

Por fim, devemos dialogar com a classe operária onde ela estiver, e no geral dizer que não queremos os objetos dos burgueses, mas nossa participação na riqueza nacional porque o trabalho humano é a fonte de qualquer valor, inclusive o fato de que o capital tem sua origem no trabalho. Já passou do dia de lutarmos para organizar forças e constituirmos um foro de comunicação eficiente.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018


Pauta incompleta

A importância da filosofia não está no fato de que ela seja capaz de melhorar o indivíduo, mas, por outro lado, ser um instrumento que ajude compreender os fenômenos que compõem a realidade, visto que compreendê-la em sua totalidade consiste num esforço para além do possível. Nesse caso, a importância da filosofia reside na reflexão sobre os fenômenos morais que englobam a consciência do agir, a maneira de agir, a vontade de agir etc., logo tais elementos do fenômeno moral são estudados especificamente pela ética, ramo da filosofia que investiga os pormenores da moral, uma vez que esta pode ser entendida como um conjunto de regras que regula, ao lado do direito, o quotidiano dos indivíduos com base nos valores socialmente construídos num determinado processo histórico. Assim, ética e moral são termos distintos que expressam conceitos díspares.

Esse preâmbulo justifica-se porque, geralmente, as esquerdas confundem ética com moral, além de pensar que o mundo moral é, necessariamente, reacionário, considerando as relações sociais um emaranhado de dominações porque esquecem que o ato de respeitarmos nossos pais, educarmos nossos filhos, lutarmos por leis mais justas não sejam atos revestidos de moralidade etc. As esquerdas brasileiras fogem do debate moral porque o consideram inferior ao debate político, acreditando que a política seja uma instância descolada da moral, imaginando-se superior à direita por esta  ter monopolizado o discurso moral.

Por tropeçar na filosofia e cair de corpo e alma no pensamento ideológico, as esquerdas desconhecem o significado de moral e passam associá-la ao conjunto de elementos dominadores, reproduzindo valores advindos do mundo econômico nas outras formas de relações sociais. Quando as esquerdas tropeçam na filosofia e caem na ideologia apartam-se do povão e não compreendem porque este mesmo povão entrega sua vida à direita que se tornou capaz de re-significar e dirigir as indignações morais para a despolitização da corrupção

As esquerdas devem repensar seus pontos de vista sobre a questão moral porque a corrupção em que muitos se meteram fazem com que nosso povão se afaste delas e, logicamente, associe corrupção ao nosso mal maior, ignorando que a concentração da riqueza nos bolsos de poucos seja um outro dado moral do nosso universo político. Por fim, creio que devemos olhar a política como um elemento ligado à ética, lição importante de Aristóteles para ampliarmos a discussão política sobre a corrupção, mal que mata nosso povão nas muitas filas da vida brasileira.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018


Esquerda e o discurso econômico

Não sou economista, mas me importo com esta ciência porque ela ajuda compreender a realidade como está posta sem tergiversação, contrário da maioria dos integrantes das esquerdas brasileiras, egressa geralmente dos cursos de história, ciências sociais e alguns penduricalhos dos curso de filosofia, letras e direito. Digo isso pelo completo desleixo em relação ao discurso econômico por parte dos candidatos à presidência da república, especialmente os que militam no campo da esquerda com honrosa exceção para Ciro Gomes, que agora, segundo psolistas e petistas, está infiltrado para desestabilizar as esquerdas com seus quadros qualificados com experiências em ONGs e associações de moradores.  

Mas tem outro dado que complica a relação das esquerdas com a realidade, pelo menos no Rio de Janeiro, é que sua esmagadora maioria não está empregada no setor produtivo, isto é, no mundo privado, por isso não tem a mínima noção da engrenagem do modo de produção capitalista, e os conhecimentos que tem dele parte da cópia da cópia, prejudicando qualquer análise eficiente sobre os outros problemas sempre derivados da esfera econômica. Por isso, que, nos debates com o pessoal da direita, sempre toma uma surra no trato da ciência da relação necessidade-escassez.

O que me deixa perplexo no debate econômico é o bater de ombros que as esquerdas sempre pronunciam por uma falta de entender que, em última instância, são as relações de produção econômica que determinam as demais produções, e se muitos “esquerdistas” tivessem administrado uma carrocinha de amendoim, saberiam que é preciso receita para poder sustentar despesas. Portanto, se vivemos sob o modo de produção capitalista nos planos interno e externo, é mais do que óbvio ser preciso jogar o jogo dentro dele e buscar o melhor para a classe operária, sem o que ficaremos pensado que ainda estamos no grêmio estudantil do ensino médio, esperando escatologicamente a iminência da revolução.     

quarta-feira, 1 de agosto de 2018


A falta de diálogo entre a esquerda marxista e os trabalhadores

Apesar de muitas críticas à teoria do agir comunicativo de Habermas, penso que o filósofo alemão acerta quando destaca que no universo dos falantes, emissor e recebedor, as desavenças têm origem nos ruídos enquanto obstáculos à falta de comunicação entre os falantes por conta de um estar em sintonia diferente do outro, portanto é preciso que ambos dominem o código linguístico para falarem a mesma coisa. Nesse caso, segundo Habermas, o agir comunicativo tem por imperiosidade a razão capaz de linkar os falantes no universo dos princípios e não dos interesses, visto que aquele pode gerar o consenso e os interesses inviabilizá-lo por conta da irracionalidade própria dos particularismos.

Pois bem, partindo do princípio de que a comunicação é o centro da divulgação das ideias, a esquerda marxista perdeu a classe operária para o PT, as igrejas evangélicas e os setores conservadores porque foi incapaz de se comunicar para além dos seus muros, logo não se deve responsabilizar os operários pelos nossos insucessos, pelas nossas incapacidades de explicar a realidade a partir do materialismo histórico. Nós, da esquerda marxista, nos contentamos em elaborar explicações marxistas abstratas, ao gosto acadêmico e numa disputa para saber quem dominaria mais o aparato teórico do pensamento marxista, com isso nos furtamos dialogar com os operários e olvidamos o quotidiano deles e suas dificuldades. Encastelamo-nos numa torre de marfim e nos desconectamos da realidade.

A esquerda marxista sempre se queixou da falta de espaço nas mídias convencionais, alimentando a infantil hipótese de obter, dessas mídias, os espaços que são reservados aos outros grupos políticos. Não, as mídias convencionais estão corretas pelo simples fato de que nós somos contrários aos interesses delas, logo não podemos ser tratados como aliados porque nosso objetivo e mudar o estado de coisas, por isso só podemos contar com a classe trabalhadora, mas para isso é necessário que mudemos nossa linguagem empolada e voltemos a ela explicando a realidade partindo do universo do trabalho enquanto raiz da produção de todo e qualquer bem, além de ouvirmos o que o operariado tem para nos dizer.

Por fim, devemos dialogar com a classe operária onde ela estiver, e no geral dizer que não queremos os objetos dos burgueses, mas nossa participação na riqueza nacional porque o trabalho humano é a fonte de qualquer valor, inclusive o fato de que o capital tem sua origem no trabalho. Já passou do dia de lutarmos para organizar forças e constituirmos um foro de comunicação eficiente.

quinta-feira, 26 de julho de 2018


Bom exemplo

A vitória da seleção francesa sobre à da croata foi importante por muitos motivos dos quais destaco: um futebol livre, solto e repleto de improvisos et.. Mas tem um aspecto que considero relevante, a França doravante ingressa no universo dos países mestiços em que Mbappé é seu filho legítimo, tal qual o nosso Garrincha, sem querer comparar suas respectivas qualidades tcnico-futebolísticas. Apenas ressalto que esses jovens e talentosos atletas franceses, pretos e mestiços, prepararão a ascensão dos seus filhos à classe média e aos quadros da administração púbica francesa, bem como ao universo intelectual desta nação. 

Estou certo que os pretos e mestiços franceses terão mais sorte que os nossos. 

Mais uma vez a França é um bom exemplo para nossa civilização ocidental.