Platão e o PT
Numa de suas palestras Gesse de Souza, o novo teórico
do PT, sustenta uma infantil crítica ao liberalismo a partir de outra crítica
baseada nas chicanas nietzscheanas sobre o pensamento de Platão, acusando o
filósofo grego de ter separado a realidade em dois planos, a saber: o
suprassensível e o sensível, associando este aos sentidos, ruim, e aquele à
razão, boa em si.
Primeiro,
Platão não divide a realidade, ele constata que a realidade tem dois planos que se conectam, sustentando que o mundo sensível não confere conhecimento porque
os sentidos não podem dizer nada sobre a realidade pelo fato das sensações
estarem afetas ao plano das percepções particulares, às experiências
arbitrárias da opinião pessoal, ao passo que a razão busca os significados dos
objetos que aos sentidos são vedados. Segundo, Platão deseja superar o axioma
protagoriano do homem como medida de todas as coisas para o divino como centro
da realidade, embora o divino de Platão em nada se pareça com o divino cristão,
pelo contrário, é impessoal e está fora da história por não se submeter às
orações e às preces dos indivíduos. Portanto, com a primazia da razão sobre os sentidos,
Platão inaugura o cerne do pensamento científico.
Tanto Nietzsche quanto Gesse erraram nas críticas,
sobretudo quando o teórico do PT olvida os avanços civilizatórios trazidos pelo
pensamento liberal (econômico e político), não atentado às observações de Marx
quanto ao fato da burguesia ter, revolucionariamente, destruído o mundo feudal
e seu séquito de valores. Aliás, Gesse critica veladamente Marx quando afirma que o aspecto econômico não é suficiente para especificar as classes sociais.
A associação do sensório ao corpo e do racional à
alma foi uma metáfora que Platão construiu para relacionar sensório ao
transitório e racional ao perene, além de ponderar que neste mundo, ou melhor,
as condições deste mundo não nos oferecem nenhuma possibilidade de
conhecimentos seguros para resolver nossos problemas, mas somente os
conhecimentos da alma por serem universais e necessariamente válidos,
associados à razão. Nesse caso, Platão não diz que o corpo é podre, mas uma
condição real que aprisiona a alma e não deixa com que está flua em toda sua
potência.
Contra isso Nietzsche afirma que o filósofo grego teria
despontecializado a vida em favor do transcendete. Pelo contrário, Platão
potencializa a vida à medida que nos remete ao transcendente enquanto superação
da “doxa”, do efêmero, do vulgar etc., ponderando que vemos apenas sombras
como cópia da cópia e não os objetos por si mesmos. Daí Gesse de Souza se basear
em Nietzsche para fazer crítica à razão sem dominar o pensamento de Platão para
saber se o grego estava certo ou não, exemplificando o tipo de intelectual que
somos: críticos de escolas teóricas por meio de outras escolas teóricas sem aprofundamento
sobre a escola criticada sem conhecer seus pressupostos teóricos, por outra,
despreza as contradições das assertivas de cada uma e suas correpondentes
críticas. E como Gesse é confuso, confuso também é o PT na sua relação entre
teoria e prática, política e realidade.
Minhas impressões sobre o PT é que ele consiste
teoricamente num balaio de gatos, e como nesse campo não tem clareza da
realidade, sua ação é uma verdadeira barafunda, criando confusão no seio da
classe trabalhadora. Ao querer superar o marxismo como teoria da classe
operária, nos jogou no colo da burguesia que não abre mão do pensamento liberal
porque, corretamente, defende seus interesses de acumulação de riqueza.